Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp

Por que Lima Barreto? Por: Cristina Nunes de Sant´Anna

#Cristina Nunes de Sant´Anna

=====================

Porque tudo o que o escritor apontou, criticou, escreveu está aí, na nossa frente, pulando em nosso colo: política, políticos, corrupção. Hospitais sem médicos, planos mirabolantes para fazer ruir a saúde pública, haja vista a recente tentativa de acabar com nosso combalido, mas bravo SUS. A atualidade de seus escritos nus e crus sobre miséria, calhordice, omissão e indiferença é flagrante. Lê-lo é, ainda, é maravilhoso. Mas também desconcertante porque somos obrigados a enfrentar a nós mesmos e nossa falência como cidadãos.
Porque o jornalista Lima Barreto, sóbrio ou caindo de bêbado nas ruas, em casa, lendo na biblioteca que virou seu quarto — a Limana — como a chamava, ou sem poder sair, no inverno, por não ter roupa de lã e as calças estarem lavando, pode ainda nos servir como um poderoso e eficiente remédio para a memória e um estimulante para o engajamento por princípios éticos. O autor sempre defendeu visceralmente seus pontos de vista, escolhendo retratar, em sua obra, o lado dos oprimidos, dos desvalidos, malsãos, dos violentados de alguma forma pela Primeira República.
Aos 41 anos, em 1º de novembro de 1922, o Brasil perdia Afonso Henriques de Lima Barreto. O escritor veio ao mundo em 1881, no Rio e Janeiro. Era uma sexta-feira, 13, do mês de maio. Sete anos depois, no dia 13 de maio de 1888, abolia-se a escravatura. Meses depois, numa sexta feira, que caiu em 15 de novembro de 1889, Deodoro da Fonseca abolia a monarquia e chegava-se à República. Lima Barreto passou pela Abolição da Escravatura, a pedra de cal para o ocaso do último imperador do país. Conviveu com dois sistemas políticos: o monárquico e o republicano. Passou por 13 presidentes, alguns estados de sítio, poucas eleições (a bico de pena), pela política dos governadores, poderio dos coronéis e suas oligarquias. Passou por revoltas e revoluções: Armada, Vacina, Chibata, Canudos, entre outras. Presenciou a fundação da Academia Brasileira de Letras, depositária da boa literatura e dos bons literatos, em acordo com o projeto literário-político-nacional brasileiro.
Sobreviveu a surtos de varíola, febre amarela, tuberculose, cólera, à gripe espanhola, que assolaram a então capital federal. Esta última matou o rei da Espanha e o presidente Rodrigues Alves, vitimando 13 mil pessoas no Rio de Janeiro.
Sobreviveu, ainda, ao positivismo, um dos braços da república dos militares do sabre e da espada, e, mal, à tese cientificista em vigor de superioridade da raça branca.
Viveu sob a gestão de 24 mandatários à frente do município do Rio de Janeiro, a também capital federal, entre eles interventores, interinos e prefeitos propriamente ditos, nomeados pelo Governo Federal.
É testemunha da restauração urbana à francesa do prefeito Pereira Passos, no projeto Belle-Èpoque à brasileira de ordem, civilização, progresso e eugenia urbanas, que expulsou pobres para subúrbios e morros, processo retomado pouco depois, com maestria, pelo prefeito Carlos Sampaio.
Vê o preço do café, principal produto do país, subir e se desvalorizar, a borracha fazer ricos e pobres em curto espaço de tempo, a eletricidade e os bondes da Light chegarem. Assiste a greves no ainda jovem movimento operário brasileiro. Acompanha pelos jornais a Primeira Guerra, a Revolução Russa, a vinda do Rei Alberto I, da Bélgica, ao Brasil, a exposição do Centenário da Independência.
Mas não verá a posse do presidente Artur Bernardes, em 15 de novembro de 1922. Lima Barreto morrera 14 dias antes, em casa, no Rio de Janeiro, no subúrbio de Todos os Santos, às cinco da tarde, de colapso cardíaco.
Entre seus nascimento e morte, no dia 1º de novembro de 1922, o intelectual negro, jornalista, literato, escritor e funcionário público Afonso Henriques de Lima Barreto testemunhou, escreveu sobre, conviveu com e passou por uma enormidade (e pluralidade) de fatos e episódios que, entrelaçados, convergiram na formação do processo de construção e de consolidação da Primeira República brasileira ou República Velha, a que deu origem à nossa República. O escritor viveu em um contexto marcado por transformações substanciais, relacionadas à configuração da sociedade capitalista no Brasil. Conseguiu ligar, em seus escritos, com sua linguagem simples e direta, o político, o social e o econômico, ao ideológico. Conseguiu igualmente, com sua intertextualidade, penetrar a fundo na ambiência de toda uma época, revelando por inteiro a mentalidade desta época.
Sua obra de amplo espectro é um documentário fundamentado de um sistema que passou de uma sociedade escravista, para uma falsa democracia republicana, sustentada por oligarquias. Composição de poder e força que Lima Barreto considerava um anátema. Não por acaso, o jornalista irá se posicionar sobre todo o cenário político republicano em sua obra, reunida em 17 volumes publicados pela Editora Brasiliense, em 1956. Como escreve o jornalista e historiador Francisco de Assis Barbosa, seu principal biógrafo, Lima Barreto, por intermédio de sua literatura-reportagem, tratará de todos os acontecimentos de sua época, dos simples aos mais complexos.
Marcado profundamente pelo cenário político-econômico instável da República brasileira como bom repórter que também foi, foi aos fatos. Foi à rua trabalhar e colher o que se dava naqueles tempos. Sempre voltando à sua redação: sua casa naquele subúrbio pobre de Todos os Santos, à qual batizou, ironicamente, de Vila Quilombo, para montar suas reportagens, na forma de crônicas, romances, artigos, contos, vasta correspondência, diário, ensaios.
Romancista e cronista da Primeira República, Afonso Henriques de Lima Barreto foi um dois mais importantes escritores de ficção brasileira, sendo o precursor do Movimento Modernista e do romance social. Primeiro autor brasileiro a se definir como negro, não construiu uma literatura somente negra, mas negra, inclusive, pois foi como um negro em um país racista e defensor de um projeto de branqueamento nacional, que Lima Barreto percebe a realidade, enfrentando-a com engajamento e resistência. Ele próprio pagou a publicação de seus livros, para fazer sua literatura engajada, isto é, aquela que se configuraria numa forma de comunhão entre os homens. Os personagens citadinos e metafóricos que criou mostraram (e mostram) toda a mentalidade burguesa, com suas fraquezas e alienações, que predominou no Brasil nos primeiros 30 anos da vida republicana ( e que, ainda predominam).
A obra Lima Barreto mostra-se capaz de nos atrair ainda hoje. Ao se iniciar sua leitura, quase que imediatamente, estabelece-se uma espécie de pacto entre o autor e seu leitor, em virtude das eficácia, atualidade e vitalidade de sua narrativa do cotidiano, misturada à ficção, ao real e à verossimilhança. No decorrer da leitura, ocorre uma diluição de limites, de barreiras e a linguagem da narrativa flui intertextual e flerta com a etnografia. Suas narrativas críticas se enredam às narrativas do cotidiano. O ficcional e a verdade da literatura engancham-se no real vivido, descritos pela ironia da narrativa de negro viajante do Rio de Janeiro.
Por que Lima Barreto? Lima Barreto porque sua literatura engajada põe à mostra — de forma permanente — a ética, aplicando-a ao fato literário, pois escrever literatura é um ato público, não se estando diante da arte pela arte, tão somente. Do deleite, apenas. Sendo ele, sobretudo, um escritor de resistência, que criou metáforas de resistência para resistir, em seu espaço de combate: a cidade. Armado com a escrita, mas solidário com o outro, pela literatura.

#Cristina Nunes de Sant´Anna é jornalista, doutora em Ciências Sociais pela Uerj e autora do blog/fanpage Literatura é bom pra vista.

Scroll Up