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O poder da Resiliência

Denise Caramori

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Quando nos colocamos à disposição para o aprendizado, aprendemos. Deveria ser o bastante na vida ter amor pelo o que se faz, e amor por tudo o que se pode fazer na vida do outro. A convivência com o outro nos possibilita aprender e compartilhar, perceber e vivenciar que cada ser humano tem algo a ensinar e a aprender, cada ser humano possui dentro de si um universo de possibilidades e habilidades, basta estarmos abertos a tudo o que nos rodeia, percebendo que cada pessoa que entra na nossa vida é por algum motivo, um aprendizado, uma cura.

Convivendo com meninas adolescentes de uma Instituição de acolhimento aqui na cidade de Dourados, aprendi muito, e pude junto à elas, pensar à respeito do poder da resiliência. Cada uma delas, ali, esperando por um motivo, um objetivo que as faça seguir em frente com coragem e perseverança para enfrentar os desafios da vida. Cada uma delas com um passado difícil, de provações e maus tratos, em busca de paz, de alguém que as ajude a enxergar a importância de perdoar a si mesmas e aos outros, para não viverem aprisionadas num círculo de vergonha, medo, culpa e raiva dos acontecimentos ocorridos no passado. Estas meninas não são vítimas, são sobreviventes, e conviver com elas é testemunhar que é possível sim, felicidade nas pequenas coisas e paz para seguir em frente.

Se você visitar uma Instituição de acolhimento, e aconselho que o faça, só aqui na cidade de Dourados/MS temos quatro, vai perceber o amor em cada olhar e em cada gesto, a linguagem do corpo que se manifesta num pedido de atenção, me veja, me enxergue, me aceite da maneira que eu sou, me ajude a descobrir no que eu sou boa, e que eu sou capaz, me ajude a descobrir e a perceber minhas qualidades, minha habilidades e a colocá-las em prática. Estas meninas esperam por perceber e descobrir que são maiores do que acham que são, como na música do Teatro mágico “Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior”.

Na correria do dia a dia, à nossa volta, estão ali, são outras pessoas, diferentes e iguais a nós, outras pessoas carentes de um cuidado, um olhar, um sorriso. Nós também fazemos isso, nos mostramos carentes de atenção o tempo todo, atenção do outro, olhe para mim, me veja, me respeite. Uma das meninas que conheci e me afeiçoei se chama Iacina, troquei o nome para preservar sua identidade, menina linda, machucada pela vida, uma sobrevivente, sorriso no rosto, vontade de lutar e aprender. Ela me ensinou palavras em Guarani, eu a ensinei sobre o poder da resiliência. Resiliência, que vem da palavra em Latim “Resalire”, que significa “voltar a saltar”. É a arte de transformar a dor dando sentido à ela, a capacidade de se adaptar as mudanças, de se recuperar de situações de crise e aprender com elas, tendo a mente flexível e otimista, com a certeza de que tudo passa, e tudo vai dar certo. Superar a dor e recomeçar a vida. Mas como se tornar mais forte e aprender com as dificuldades? Amando. Somente supera traumas aquele que se sentir amado, acolhido, cuidado.

Iacina é uma adolescente que quer lutar box, passar no concurso da guarda mirim, tocar violão. Tentando encontrar o equilíbrio entre a vida desejada e os problemas diários, suportando as dificuldades sem esmorecer, buscando caminhos para viver melhor apesar dos pesares. Sobreviver, permanecer viva, continuar a existir. Como pode uma menina que passou por tanta coisa difícil na infância, desenvolver resiliência? Uma infância infeliz representa apenas “começar mal na vida”, não é o fim, é o começo. A adolescência é um momento de profundas transformações na vida de uma pessoa. O corpo muda, os interesses são outros, a vontade de descobrir o mundo é grande. É uma fase de questionamentos, de quebrar regras, de contestar, e ali está Iacina, que embora aparentemente firme, na verdade está lidando com a insegurança que sente à respeito de seu futuro. Iacina é uma dentre as muitas meninas que vivem nas instituições de acolhimento, ela tem seus sonhos e ela tem pela frente uma vida linda, porque ela tem uma VIDA. Fiz questão de apresentar à Iacina e as meninas da Instituição uma das minhas cantoras preferidas, Nina Simone e sua música “Ain,t Got No/ I Got Life”, para que elas pudessem sentir e cantar… Então o que eu tenho? Porque mesmo eu estou viva? O que eu tenho ninguém pode tirar de mim… Eu tenho a mim mesma… Ohhh Eu tenho vida!

Como escreveu Jean Paul Sartre “não importa o que fizeram com você. O importante é o que você faz com aquilo que fizeram com você”. Iacina, em Tupi-Guarani significa: Borboleta de asas douradas.

 

Denise Caramori de Souza

Psicopedagoga/Terapeuta

Equoterapeuta e Equitadora.

denicaramori@hotmail.com

 

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