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Candidato peronista argentino diz que país está em default virtual

Alberto Fernández, o candidato da coalizão peronista que lidera amplamente a disputa à eleição presidencial de outubro na Argentina, disse que o novo plano do governo para reestruturar sua dívida de curto prazo mostra que o país está praticamente insolvente, já que uma crise de confiança acabou com a demanda do setor privado por bônus da dívida do governo.

 

 

“Agora, não há ninguém assumindo a dívida argentina, ou ninguém que possa pagá-la”, disse. “A Argentina está em um default virtual e oculto”, disse ele à Dow Jones Newswires, em matéria reproduzida pelo jornal Valor Econômico.

O governo do presidente Mauricio Macri estendeu unilateralmente o vencimento de todos os títulos de curto prazo e anunciou que quer reestruturar sua dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI), depois que o Tesouro do país não conseguiu rolar as obrigações com o setor privado.

Os mercados reagiram negativamente, e a agência de classificação de risco S&P Global Ratings rebaixou a dívida da Argentina para default seletivo na quinta-feira. “Isso afetou imensamente a dinâmica da dívida em meio a uma taxa de câmbio em desvalorização, a aceleração provável da inflação e o aprofundamento da recessão econômica”, apontou a S&P em nota.

Depois foi a vez da Fitch cortar o rating dos títulos da dívida soberana argentina de longo prazo em moeda estrangeira e local de “RD” (default restrito). Também a Moody’s rebaixou a nota de crédito sobre os títulos de longo prazo em moeda estrangeira e local do país sul-americano de “B2” para “Caa2” e manteve o rating sob revisão para possível novo rebaixamento.

O FMI, que aprovou um pacote de socorro de US$ 57 bilhões para a Argentina em 2018, informou na quarta-feira que estava avaliando as medidas.

Orçamento equilibrado 

Em sua primeira entrevista a um meio de comunicação estrangeiro antes da eleição, Fernández disse que não estava disposto a apoiar as medidas de emergência do governo Macri destinadas a conter a crescente volatilidade. “O mercado agora sabe para onde eles estão indo”, afirmou ele no quartel-general de sua campanha, referindo-se aos esforços do governo para reestruturar a dívida de curto prazo.

O último episódio de volatilidade a atingir os ativos argentinos foi desencadeado pelo contundente revés sofrido por Macri nas prévias eleitorais de 11 de agosto, que colocou Fernández e sua parceira de chapa, a ex-presidente Cristina Kirchner, como favoritos para vencer a eleição de 27 de outubro por ampla margem. Na Argentina, antes de cada eleição é realizada uma prévia em todo o país para decidir quais partidos podem apresentar candidatos, e essa votação é vista como um forte indicador do resultado final da eleição.

Fernández, de 60 anos, disse que, se for eleito, seu governo eventualmente buscará um orçamento equilibrado. Mas primeiro ele planeja um programa ambicioso para restaurar o poder de compra, com o aumento dos salários e das aposentadorias, e ao mesmo tempo conter as pressões inflacionárias por meio de um pacto abrangente com os empregadores.

“Para reverter este ciclo é necessário lançar um plano para estimular o consumo, e não vou pedir a permissão do FMI para isso”, disse Fernández.

Segundo Fernández, em vez de ser usado para substituir dívidas mais caras, os dólares do FMI evaporaram com a fuga de capitais, enquanto o governo queimava reservas em moeda estrangeira para conter a implacável desvalorização do peso argentino.

Troca produtiva

O banco central gastou perto de US$ 1,5 bilhão para atender à demanda crescente por dólares desde meados de agosto, ou cerca de 10% de suas reservas líquidas em moeda estrangeira.

“A crise atual é um caso de déjà-vu”, disse, ao lembrar o colapso financeiro do país em 2001, que levou ao calote de US$ 100 bilhões da dívida do governo, um recorde na época. Ele acrescentou que suas divergências com as condições do FMI também são semelhantes.

“O que eu quero que entendam no FMI é que eles são os culpados desta situação”, afirmou Fernández. “Foi um ato de cumplicidade com o governo Macri. Foi a campanha pela reeleição mais cara da humanidade, e eles deram dinheiro a um gastador compulsivo.”

O FMI não quis fazer comentários. No começo desta semana, o Fundo informara que membros de sua equipe sênior se reuniram com Fernández e seus assessores econômicos “para uma troca produtiva de opiniões”.

Fernández disse ter deixado claro que não apoia as medidas de austeridade de Macri para equilibrar o orçamento do governo, que estavam entre as condições acertadas com o FMI.

“O governo Macri causou danos semelhantes aos sofridos pela Argentina em 2001: inadimplência, falta de reservas de moeda estrangeira, desvalorização acentuada e aumento da pobreza”, afirmou.

Em seus 200 anos de história, a Argentina deixou de pagar sua dívida externa oito vezes. Também recebeu quase 30 pacotes de socorro do FMI, que não teve boa aceitação nos governos anteriores que rejeitaram o projeto neoliberal.

Controle de capital

Muitos economistas avaliam que hoje a Argentina não tem poder de fogo financeiro para estimular a economia, que se contraiu 5,8% no primeiro trimestre, em relação a um ano antes. E nem todo mundo culpa Macri pelo último desastre financeiro do país.

“O governo tomou a decisão certa, levando em conta a situação atual”, disse José Luis Machinea, ex-ministro das Finanças e governador do banco central. “A incerteza política ligada ao resultado das primárias levou a renovação da dívida de curto prazo ao colapso. Nesse aspecto, é difícil culpar o governo.”

Fernández, um líder político veterano que gosta de tocar violão e ouvir rock argentino, tem extensas relações com todo o movimento peronista, que inclui sindicatos, grupos de esquerda e governadores das províncias.

Ele também é visto como mais pragmático que Cristina Kirchner, que nacionalizou empresas estrangeiras e impôs controles de capital.

Fernández disse ser contra o controle de capital e as desapropriações. Ele afirmou que, se vencer, tentará atrair investimentos estrangeiros, concentrando-se nos esforços para continuar a exploração da vasta formação de Vaca Muerta, que tem um dos maiores depósitos de petróleo e gás de xisto do mundo. “Para nós, é surpreendente que o mundo acredite que Macri seja a solução”, afirmou.

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