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Aulas remotas em tempos de pandemia: Educação não é  gambiarra

Por: Onildo Lopes dos Santos*

A pandemia do Coronavírus (COVID-19) impactou significativamente as relações econômicas, políticas e sociais em escala mundial. No âmbito da Educação, segundo a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, Unesco,  aproximadamente 1, 5 bilhão de estudantes estão fora das escolas no mundo todo e a  maioria desses estudantes está sem acesso às aulas remotas. Além disso, até o presente momento a maioria dos municípios e secretarias estaduais não têm uma estratégia digital adequada para atendê-los. Assim  como está a aprendizagem da maioria das crianças e dos adolescentes nesses tempos de isolamento social?

Está ocorrendo de forma precária, pois somente uma pequena parcela desses estudantes tem recursos para acessar as aulas “on line”.  Conforme pesquisa TIC Domicílios de 2018, citada pela colunista do portal educaçãoestadão.com.br, Ana Maria Diniz, mais de um terço das residências estão desconectadas e a maioria dos que dizem ter internet, são de redes móveis com planos limitados, portanto precários. Já outra pesquisa feita pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, CGI.br, mostrou que  em 2018, 58% dos domicílios no Brasil não têm computadores e 33% não possuem internet. Assim  a desigualdade é gritante. Desigualdade de recursos, de condição para estudar e  de tempo .

Para Lucia Delagnello, diretora-presidente do Centro de inovação para a Educação brasileira, CIEB, poucos países conseguiram adaptar seus sistemas de ensino para este período de isolamento social e “manter uma certa normalidade”. Conforme Lucia que é doutora pela Universidade de Harvard. “São aqueles que já tinham experiência no uso da tecnologia na Educação, como China, Cingapura e Estônia”. Não é o caso do Brasil, pois a maioria das secretarias estaduais de ensino não tem plataformas nem metodologia estabelecida para oferecer aulas remotas, conclui a educadora.

Por outro lado, o nosso ofício foi um dos que mais sofreu mudanças profundas. Tendo como instrumentos essenciais de nosso trabalho o próprio corpo e a própria voz, agora, no entanto, temos como ferramentas os celulares, os computadores e redes sociais. Em meio à adaptação a essa nova forma de trabalho, temos enfrentado maiores responsabilidades e cobranças em nossas tarefas pelos gestores.

Além disso, aulas remotas  exigem  uma melhor preparação. Se erramos em sala de aula, podemos corrigir naquele mesmo momento, agora não.  Gravar aulas e colocar no Youtube e atendimento individualizado demanda tempo e dá muito trabalho. Outro problema é a perda de contato com alunos que não têm acesso a dispositivos como computadores ou celulares para receber as atividades e  assistir às aulas virtuais.

Com isso aumenta os níveis de ansiedade. Pesquisa realizada pelo Instituto Península com 2.400 com colegas da educação básica de todo o Brasil, das redes privada e pública, desde a educação infantil até o ensino médio, incluindo a EJA (Educação de Jovens e Adultos) mostrou que a ansiedade perante as aulas remotas e a sobrecarga de trabalho aumentou espantosamente. “Eles tiveram que transformar toda a sua rotina, em jornadas duplas ou até triplas, se somarmos os trabalhos domésticos e a educação em casa dos próprios filhos”, explica Heloísa Morel, diretora do Instituto Península.

E há mais razões para o aumento da ansiedade: as queixas de pais e mães dos alunos que têm se avolumado. Nós temos recebido áudios dos familiares nos grupos de “Whatsapp” reclamando, porque está todo mundo estressado durante esse período e temos recebido toda essa carga de reclamações. É super desgastante, há um desgaste físico e mental, um abalo psicológico.

A pesquisa do Instituto Península aponta ainda que, na China, epicentro originário do novo coronavírus, aumentou o número de professores com síndrome de “burnout” -estafa, esgotamento-  durante a pandemia, e que isso, lamentavelmente, acorre no Brasil. A mesma pesquisa também mostrou que, mesmo no cenário de maiores cobranças, 60% da nossa categoria ainda dedicam tempo para estudar, fazer cursos e se atualizar.

Por fim, encerro esse texto com as palavras do Alessandro Marimpietri, psicólogo especializado em educação infantil que defende a necessidade de rever as expectativas de acordo com o momento atual. “Estamos vivendo situações cheias de ineditismos, e é preciso lembrar que os professores, as famílias e as crianças não são perfeitas. Temos que fazer o que é possível”, explica ele. O psicólogo recomenda fazer menos, mas com mais qualidade. “O objetivo não é mais cumprir um cronograma e um calendário pedagógico, mas, sim, a manutenção simbólica da experiência escolar, essa necessidade do saber e do aprender”.

O autor é professor da rede estadual de ensino

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